Isto não é sobre a morte. É sobre presença.
Quase todas as famílias têm fotografias. Quase nenhuma tem uma voz. E a voz é a primeira coisa a desaparecer: ao fim de dois anos ainda se vê a cara perfeitamente, mas já não se ouve como riam e como diziam o nosso nome.
Ninguém marca isto com pressa, e todos os que esperaram dizem depois a mesma frase: devia ter feito mais cedo.
Não por alguém ter partido, mas porque as histórias eram mais nítidas há cinco anos. O momento certo é sempre agora, e o agora é um simples sábado à tarde com a câmara ligada.
Três coisas que uma fotografia não guarda.
A voz
Como fazem a pausa antes da parte com graça. Como a voz baixa e a entoação muda quando estão a sorrir. O sotaque de uma aldeia que já não fala assim.
As mãos
A descascar fruta, a dobrar um pano, a cuidar de alguém. As mãos dizem o que as pessoas têm vergonha de pôr em palavras.
A casa
A cozinha como está agora, não como fica arrumada para as visitas. As casas vendem-se. Filmada uma vez, aquela fica para sempre sua.
Não tem de organizar nada.
Falamos primeiro consigo
Meia hora para entender para quem é isto e o que tem medo de perder. Normalmente, quem nos liga não é necessariamente quem vai ser filmado como personagem principal.
Vamos a casa
Dois de nós, na sala deles, com a luz que já lá está. Duas a três horas, com pausas, café, e sem horário para cumprir.
O filme, e tudo o resto
Um filme de 15 a 40 minutos, capítulos curtos para mostrar à família, e a entrevista completa guardada inteira, incluindo o que não entrou no filme.
«A minha mãe nunca vai aceitar.»
Todos dizem não ao início, e depois falam quatro horas. Não porque os convencemos, mas porque nunca ninguém lhes tinha perguntado a sério, com tempo para ouvir a resposta. Que nos perguntem pela nossa própria vida não é incómodo. É o contrário disso. Muitas vezes só falta construir o caminho até à pergunta certa, no momento certo.
Comece por onde for mais fácil.
A maioria das famílias começa por um avô e volta dois anos depois para os restantes.
Para o filho que vive longe. Para a neta que tem quatro anos e não se vai lembrar. Para quem há onze anos diz «um dia escrevo isto tudo».
De quem é a voz?
Escreva-nos umas linhas sobre a pessoa. Não precisa de ter decidido nada, nem de já ter falado com ela. A maioria escreve-nos antes dessa conversa, não depois.
Se a pessoa é muito idosa ou está doente, diga-o na mensagem. Reorganizamos o calendário para esses casos.
É a única situação em que não há lista de espera.
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